Uma investigação histórica e doutrinária sobre o cientista e teólogo sueco que, quase um século antes da codificação kardeciana, afirmou manter relações conscientes com o mundo espiritual. Suas experiências influenciaram a história do espiritualismo, mas suas concepções sobre Deus, a reencarnação, o céu, o inferno e a revelação apresentam diferenças fundamentais em relação ao Espiritismo.

- Camada Primária Swedenborgiana: Corpus teológico original em latim (Arcana Coelestia, 1749–1756; De Coelo et Ejus Mirabilibus et de Inferno, 1758; De Ultimo Judicio, 1758; Vera Christiana Religio, 1771) e produção científica prévia sobre mineralogia e anatomia.
- Camada Filosófica & Recepção Crítica Iluminista: Crítica precrítica de Immanuel Kant (Träume eines Geistersehers, 1766), historiografia da Swedenborg Foundation e análise epistemológica de Martin Schönfeld e J. Colin McQuillan.
- Camada Doutrinária Espírita: Avaliação crítica de Allan Kardec na Revista Espírita (novembro de 1859, estudo monográfico e comunicação mediúnica de 16 de setembro de 1859), O Céu e o Inferno (1865), O Livro dos Médiuns (1861) e o Catálogo Racional (1869).
- Diretriz Epistemológica & Metodológica: Distinção fundamental entre revelação individual de vidência solitária e o método kardeciano do Controle Universal do Ensino dos Espíritos (CUEE), demarcando as divergências irreconciliáveis sobre reencarnação, penas eternas e a natureza de Jesus.
Introdução — O homem que afirmava visitar o mundo dos Espíritos
Em meados do século XVIII, um intelectual sueco reconhecido por seus trabalhos científicos começou a publicar descrições extraordinariamente detalhadas de uma realidade que afirmava conhecer por experiência pessoal.
Segundo seus relatos, a morte não encerraria a existência humana. Os indivíduos continuariam conscientes, preservariam sua identidade e ingressariam em um mundo espiritual habitado por pessoas anteriormente encarnadas.
Nesse ambiente, seria possível encontrar outros Espíritos, estabelecer relações sociais, participar de comunidades e experimentar condições correspondentes à própria natureza moral.
As descrições incluíam paisagens, habitações, vestimentas, atividades, diferentes categorias de seres espirituais e uma organização complexa do céu e do inferno.
Seu autor afirmava não estar simplesmente imaginando essas realidades.
Declarava que seus sentidos espirituais haviam sido abertos e que, por essa razão, conseguia observar o mundo invisível e conversar com seus habitantes.
O responsável por essas afirmações era Emanuel Swedenborg.
Nascido em Estocolmo, em 1688, Swedenborg havia dedicado grande parte da vida às ciências naturais, à engenharia, à metalurgia e à investigação da relação entre corpo e alma.
Somente depois dos cinquenta anos passou a concentrar sua atividade intelectual na produção de obras teológicas fundamentadas em experiências que interpretava como revelações espirituais.
Sua trajetória apresenta uma característica especialmente importante para a história das religiões: a tentativa de reunir uma formação intelectual orientada pela investigação da natureza com uma experiência religiosa considerada extraordinária.
Swedenborg não foi o primeiro indivíduo a relatar visões espirituais.
Também não inventou a crença na sobrevivência da alma.
Entretanto, desenvolveu um sistema próprio, organizado em numerosos volumes, no qual procurava descrever de maneira minuciosa o mundo espiritual e estabelecer suas relações com as Escrituras cristãs.
Suas obras circularam pela Europa e influenciaram movimentos religiosos e espiritualistas posteriores.
Mais de oito décadas depois do início de sua produção teológica, o espiritualismo moderno ganharia grande notoriedade nos Estados Unidos e na Europa.
Em 1857, Allan Kardec publicaria a primeira edição de O Livro dos Espíritos, inaugurando a codificação de uma doutrina que também afirmava a sobrevivência da consciência e a possibilidade de comunicação entre vivos e mortos.
As semelhanças entre Swedenborg e Kardec são suficientes para justificar um estudo comparativo.
Contudo, não autorizam considerar suas doutrinas equivalentes.
Swedenborg não ensinava a reencarnação no sentido formulado por Kardec.
Sua concepção de céu e inferno possuía características diferentes daquelas apresentadas em O Céu e o Inferno.
Sua teologia estava profundamente vinculada a uma interpretação própria do Cristianismo.
E seus escritos espirituais eram fundamentados principalmente naquilo que afirmava perceber individualmente, enquanto Kardec defenderia a comparação de comunicações obtidas por diferentes médiuns.
A distinção é reconhecida pelo próprio codificador.
Em novembro de 1859, Kardec publicou na Revista Espírita um estudo dedicado a Swedenborg, valorizando sua importância histórica e intelectual, mas apontando limitações em seu sistema.
O objetivo deste capítulo será compreender essa relação diretamente pelas fontes.
Para isso, examinaremos sua vida, suas obras, as experiências que relatou, seus princípios teológicos, sua influência posterior e as avaliações apresentadas por Kardec.
A análise não pressupõe que os relatos espirituais sejam cientificamente demonstrados.
Também não pretende reduzir a trajetória de Swedenborg a um diagnóstico ou julgamento simplificador.
Nosso compromisso é distinguir os acontecimentos historicamente documentados das interpretações religiosas formuladas a respeito deles.
1. Quem foi Emanuel Swedenborg?
Emanuel Swedenborg nasceu em 29 de janeiro de 1688, em Estocolmo, na Suécia.
Seu nome de nascimento era Emanuel Swedberg.
A família adquiriu o sobrenome Swedenborg em 1719, quando foi elevada à nobreza sueca.
Seu pai, Jesper Swedberg, era um clérigo luterano que posteriormente se tornou bispo de Skara.
A infância de Emanuel ocorreu, portanto, em um ambiente no qual a religião cristã ocupava posição importante.
Entretanto, sua formação não se limitou à teologia.
Desde jovem, demonstrou interesse por matemática, mecânica e ciências naturais.
1.1. A formação universitária
Swedenborg estudou na Universidade de Uppsala, importante instituição de ensino sueca.
Concluiu sua formação universitária em 1709.
Posteriormente, realizou viagens pela Europa para ampliar os conhecimentos científicos e técnicos.
Passou por diferentes centros intelectuais e estabeleceu contato com ambientes dedicados à matemática, à astronomia e à engenharia.
A viagem tinha importância especial em um período no qual grande parte do conhecimento científico circulava por meio de correspondências, sociedades eruditas e contatos pessoais.
1.2. A Europa intelectual do início do século XVIII
A juventude de Swedenborg coincidiu com importantes transformações nas ciências.
A física newtoniana conquistava influência crescente.
A astronomia desenvolvia instrumentos e métodos observacionais.
A mecânica e a engenharia participavam de iniciativas econômicas e militares.
Nesse ambiente, Swedenborg interessou-se por diferentes problemas científicos e tecnológicos.
Essa trajetória ajuda a compreender por que suas obras posteriores conservariam uma linguagem sistemática, frequentemente dedicada à classificação de conceitos e à descrição de estruturas.
1.3. A atuação pública
Swedenborg não viveu exclusivamente como escritor religioso.
Trabalhou durante décadas em atividades relacionadas à administração e à mineração suecas.
Também participou da vida política e intelectual de seu país.
Essa experiência pública constitui uma parte importante de sua biografia.
A passagem para a literatura teológica ocorreu depois de uma carreira profissional já consolidada.
2. Swedenborg como cientista, inventor e pesquisador
Antes de tornar-se conhecido por suas visões espirituais, Swedenborg produziu trabalhos sobre diferentes áreas do conhecimento.
Suas pesquisas abrangeram metalurgia, mineralogia, mecânica, anatomia, fisiologia e filosofia natural.
É necessário, entretanto, distinguir propostas técnicas, hipóteses teóricas e descobertas efetivamente demonstradas.
Nem todos os projetos descritos por Swedenborg foram construídos ou comprovados experimentalmente.
2.1. Engenharia e metalurgia
A mineração possuía importância econômica fundamental para a Suécia.
Swedenborg trabalhou no Conselho de Minas, instituição relacionada à administração e ao desenvolvimento técnico do setor.
Sua atuação incluía assuntos de exploração mineral e produção metalúrgica.
Em 1734, publicou Opera Philosophica et Mineralia, conjunto de trabalhos que abordava filosofia natural e assuntos relacionados à metalurgia.
A obra constitui uma referência importante para compreender sua produção anterior à fase visionária.
2.2. Projetos mecânicos
Swedenborg elaborou ideias e propostas de equipamentos relacionados a diferentes aplicações.
Entre os projetos historicamente associados a ele estão dispositivos mecânicos, propostas para navegação e esquemas de máquinas.
Alguns desses desenhos demonstram sua capacidade de imaginar soluções técnicas.
Entretanto, o fato de uma proposta apresentar semelhanças com tecnologias posteriores não significa que ela tenha sido construída ou que tenha antecipado integralmente seus princípios de funcionamento.
A história da tecnologia exige distinguir concepção, execução e utilização efetiva.
2.3. O interesse pela anatomia
Durante as décadas de 1730 e 1740, Swedenborg passou a dedicar atenção crescente à anatomia e à fisiologia.
Seu objetivo era compreender as relações entre o corpo e aquilo que considerava o princípio da vida.
Produziu estudos relacionados ao sangue, ao cérebro, ao sistema nervoso e à constituição dos organismos.
Em sua interpretação filosófica, conhecer a organização corporal poderia auxiliar a compreender a natureza da alma.
2.4. A busca pela sede da alma
A relação entre consciência e organismo constituiu um problema importante para diferentes filósofos modernos.
Swedenborg procurou investigá-la por meio do estudo anatômico.
Entretanto, suas explicações eram condicionadas pelos conhecimentos científicos disponíveis no século XVIII.
Não é adequado afirmar que tenha demonstrado experimentalmente a existência de uma alma independente do corpo.
Sua investigação corresponde a uma etapa histórica da filosofia natural e da reflexão sobre a consciência.
2.5. Ciência e metafísica
A produção científica de Swedenborg não permaneceu inteiramente separada de suas preocupações filosóficas.
Ele procurava compreender a organização da natureza como expressão de uma ordem mais ampla.
Essa característica ajuda a explicar a continuidade de certos temas entre sua fase científica e sua produção teológica.
Contudo, continuidade intelectual não significa identidade metodológica.
As afirmações posteriores sobre visitas ao mundo espiritual não podem ser consideradas demonstradas simplesmente porque seu autor possuía conhecimentos científicos.
3. A transformação espiritual de Swedenborg
Entre 1743 e 1745, Swedenborg passou a registrar sonhos e experiências que interpretava como manifestações de natureza espiritual.
Esse período constitui uma das etapas mais importantes de sua biografia.
A documentação disponível inclui relatos pessoais e reconstruções posteriores.
É necessário distinguir as datas aproximadas das experiências daquelas utilizadas em narrativas biográficas mais tardias.
3.1. Os sonhos de 1743 e 1744
Swedenborg registrou experiências oníricas acompanhadas de reflexões religiosas.
Seus relatos envolviam temas relacionados à culpa, à purificação moral, à consciência e à missão pessoal.
Posteriormente, parte desses registros foi publicada sob títulos associados ao Diário dos Sonhos.
O material possui valor histórico por permitir investigar a maneira como interpretava suas experiências.
Entretanto, a descrição de um sonho não demonstra automaticamente uma origem sobrenatural.
3.2. As experiências de 1745
Segundo sua narrativa, Swedenborg passou a vivenciar experiências espirituais também durante a vigília.
Uma delas, situada tradicionalmente em Londres, tornou-se especialmente conhecida.
O episódio envolve a aparição de uma figura luminosa que ele interpretou como manifestação divina.
Swedenborg afirmaria ter recebido uma missão relacionada à compreensão do significado interior das Escrituras.
3.3. A abertura dos sentidos espirituais
A partir desse período, Swedenborg passou a afirmar que podia perceber realidades espirituais enquanto permanecia consciente.
Segundo seus escritos, seria possível conversar com Espíritos e anjos, visitar diferentes regiões do mundo espiritual e conhecer condições da existência depois da morte.
Ele não apresentava esses relatos simplesmente como metáforas literárias.
Considerava-os experiências reais.
3.4. O problema da documentação
A investigação histórica pode examinar os escritos e estabelecer que Swedenborg relatou essas experiências.
Entretanto, não pode demonstrar automaticamente que as figuras percebidas correspondiam a entidades espirituais independentes.
A identificação de uma causa sobrenatural constitui uma interpretação adicional.
3.5. Um cuidado com as datas
Algumas biografias antigas situam o início da revelação espiritual em 1743.
A reconstrução atualmente utilizada por estudiosos e instituições especializadas distingue os sonhos e a crise interior de 1743–1744 das experiências visionárias em vigília particularmente associadas a 1745.
Essa diferenciação é importante porque Kardec, em seu artigo de 1859, reproduziu uma cronologia biográfica que também apresenta datas aproximadas.
A fidelidade ao texto de Kardec não exige ignorar informações históricas posteriores mais precisas.
4. O relato da aparição em Londres
A experiência de Londres ocupa posição central na tradição biográfica swedenborgiana.
Seu conteúdo foi reproduzido e comentado por diferentes autores.
Allan Kardec também apresentou uma versão no artigo que dedicou a Swedenborg em novembro de 1859.
4.1. A primeira experiência
Segundo o relato apresentado na época, Swedenborg estaria em uma hospedaria quando percebeu alterações visuais e figuras que lhe causaram espanto.
Entre as imagens descritas estavam animais considerados ameaçadores e uma figura humana envolvida em luz.
A aparição teria dirigido palavras de advertência.
4.2. A segunda aparição
Na narrativa, a figura teria reaparecido posteriormente, identificando-se como Deus e atribuindo a Swedenborg uma missão especial relacionada à interpretação das Escrituras.
Swedenborg compreendeu o acontecimento como confirmação de sua vocação espiritual.
4.3. O significado religioso
Na perspectiva do próprio Swedenborg, a experiência indicava uma iniciativa divina.
Ele considerava que sua tarefa não consistia em criar livremente uma nova filosofia, mas em transmitir ensinamentos recebidos por revelação.
Essa interpretação influenciaria profundamente a autoridade atribuída a seus escritos.
4.4. A interpretação de Kardec
Kardec examinaria criticamente a identificação da figura como Deus.
Para o codificador, a aparência extraordinária de uma manifestação não bastaria para demonstrar a natureza divina daquele que se apresentava.
Essa diferença constitui um dos principais pontos de divergência entre os dois sistemas.
4.5. O limite histórico
Não possuímos um procedimento independente capaz de verificar a identidade sobrenatural da figura relatada.
A investigação pode reconstruir a narrativa e suas diferentes versões.
Não pode transformá-la em demonstração objetiva de uma revelação divina.
5. A passagem da investigação científica para a teologia
Depois das experiências que interpretou como espirituais, Swedenborg modificou significativamente sua atividade intelectual.
A produção científica deixou de ocupar o mesmo lugar em sua trajetória.
Sua atenção passou a concentrar-se na interpretação bíblica e na descrição do mundo espiritual.
5.1. A mudança profissional
Em 1747, Swedenborg afastou-se de suas atividades no Conselho de Minas para dedicar-se ao trabalho teológico.
A decisão representou uma transformação importante.
Não significou, entretanto, que tivesse perdido completamente o interesse por filosofia ou pela organização racional das ideias.
Seus escritos religiosos continuaram apresentando classificações e argumentos estruturados.
5.2. A revelação como fonte de conhecimento
Swedenborg considerava que seus novos ensinamentos procediam de experiências espirituais.
Essa afirmação diferia metodologicamente de seus trabalhos anteriores sobre metalurgia e anatomia.
A observação de processos materiais e a descrição de visões religiosas não possuem o mesmo tipo de verificação.
5.3. A interpretação das Escrituras
O principal objetivo de sua produção teológica passou a ser explicar o significado espiritual da Bíblia.
Swedenborg afirmava que os textos sagrados possuíam sentidos internos que ultrapassavam sua interpretação literal.
Essa concepção se tornaria fundamental para seu sistema religioso.
6. As principais obras de Swedenborg
A produção teológica de Swedenborg é extensa.
Grande parte de seus escritos foi originalmente publicada em latim, idioma ainda amplamente utilizado na comunicação erudita europeia.
Para este capítulo, selecionamos as obras mais importantes para compreender sua doutrina e suas relações com o espiritualismo posterior.
6.1. Arcana Coelestia — Arcanos Celestes (1749–1756)
Publicada originalmente em oito volumes, a obra desenvolve uma interpretação detalhada dos livros bíblicos de Gênesis e Êxodo.
Swedenborg procura identificar significados espirituais internos nas narrativas.
O conceito de correspondências ocupa posição central.
Também aparecem descrições relacionadas à vida após a morte e às relações entre os mundos natural e espiritual.
6.2. Heaven and Hell — O Céu e o Inferno (1758)
Esta é uma de suas obras mais conhecidas.
Nela, Swedenborg descreve o céu, o inferno e o mundo dos Espíritos.
Apresenta informações sobre a condição humana após a morte, as relações entre os seres espirituais e os princípios que determinariam sua situação.
O livro possui especial importância para nosso estudo porque apresenta diversas semelhanças temáticas com assuntos que Kardec abordaria posteriormente.
Entretanto, as conclusões dos dois autores não são equivalentes.
6.3. The Last Judgment — O Juízo Final (1758)
Swedenborg apresentou uma interpretação particular do julgamento final.
Segundo sua doutrina, teria ocorrido um acontecimento espiritual decisivo em 1757, relacionado à reorganização do mundo invisível.
Essa afirmação pertence ao sistema revelacional do autor.
Não pode ser estabelecida como acontecimento histórico empiricamente comprovado.
6.4. The New Jerusalem — A Nova Jerusalém (1758)
A obra apresenta ensinamentos relacionados à renovação da compreensão cristã.
A Nova Jerusalém é interpretada como realidade espiritual e religiosa, não simplesmente como uma cidade material.
6.5. Earths in the Universe — Terras no Universo (1758)
Swedenborg apresentou relatos sobre seres que afirmava ter conhecido e que atribuía a outros mundos.
A obra integra sua concepção de uma realidade habitada por diferentes comunidades espirituais.
Essas descrições devem ser compreendidas como conteúdo religioso, não como descobertas astronômicas.
6.6. Divine Love and Wisdom — Amor e Sabedoria Divinos (1763)
O livro desenvolve reflexões sobre Deus, criação, vida e ordem espiritual.
O amor e a sabedoria são tratados como princípios fundamentais da realidade.
6.7. Divine Providence — Divina Providência (1764)
A obra aborda a relação entre providência divina, liberdade humana e responsabilidade moral.
Essa discussão apresenta aproximações temáticas com questões posteriormente tratadas por Kardec.
Entretanto, as explicações específicas pertencem a sistemas diferentes.
6.8. Apocalypse Revealed — Apocalipse Revelado (1766)
Swedenborg apresenta sua interpretação do livro bíblico do Apocalipse, com base no sistema de correspondências.
A obra atribui significados espirituais às imagens e narrativas proféticas.
6.9. Conjugial Love — Amor Conjugal (1768)
O livro examina relações afetivas, casamento, sexualidade e vínculos espirituais.
Suas concepções precisam ser compreendidas considerando o ambiente moral e social do século XVIII.
Não devem ser transformadas automaticamente em normas contemporâneas de relacionamento.
6.10. True Christian Religion — A Verdadeira Religião Cristã (1771)
Publicada no final de sua vida, a obra apresenta uma exposição abrangente de sua teologia.
Aborda Deus, Jesus Cristo, Escrituras, fé, caridade, sacramentos e renovação religiosa.
É especialmente importante para distinguir Swedenborg das tradições cristãs históricas e do Espiritismo kardecista.
7. O conceito de correspondências: a chave do sistema de Swedenborg
Um dos fundamentos mais importantes da doutrina swedenborgiana é a teoria das correspondências.
Segundo Swedenborg, existiria uma relação profunda entre as realidades naturais e espirituais.
Os elementos do mundo material corresponderiam a determinadas realidades ou princípios espirituais.
7.1. O mundo exterior e o mundo interior
Na interpretação de Swedenborg, a realidade material não constitui um conjunto de acontecimentos inteiramente separado do mundo espiritual.
Os fenômenos naturais poderiam expressar significados internos.
Essa correspondência não seria apenas uma associação literária arbitrária.
Swedenborg a considerava parte da própria organização da criação.
7.2. A interpretação bíblica
Sua teoria era utilizada especialmente na leitura das Escrituras.
Narrativas, personagens, lugares, animais e objetos poderiam possuir significados espirituais correspondentes.
Essa abordagem se afasta de uma leitura exclusivamente literal.
7.3. Exemplos de correspondências
Na apresentação que Kardec fez da doutrina, aparecem exemplos relacionados a animais, metais, plantas, alimentos e habitações.
Esses elementos seriam associados a estados morais, conhecimentos e qualidades espirituais.
Entretanto, as classificações não devem ser confundidas com relações físicas demonstradas experimentalmente.
7.4. O problema da verificação
Uma interpretação simbólica pode possuir coerência dentro de determinado sistema.
Entretanto, isso não demonstra que exista uma correspondência objetiva e universal entre cada objeto material e um significado espiritual.
As associações precisam ser compreendidas no contexto religioso em que são formuladas.
7.5. A crítica de Kardec
Kardec considerou esse aspecto um dos pontos mais problemáticos da doutrina de Swedenborg.
Sua posição será examinada detalhadamente quando estudarmos o artigo de novembro de 1859 e a comunicação mediúnica publicada na mesma edição.
8. Deus e Jesus Cristo na teologia de Swedenborg
Swedenborg desenvolveu uma interpretação própria do Cristianismo.
Sua teologia não corresponde integralmente ao luteranismo em que foi educado.
Também não reproduz a formulação trinitária tradicional das principais Igrejas cristãs.
8.1. Um único Deus
Swedenborg defendia a existência de um único Deus.
Entretanto, sua maneira de compreender a natureza divina possuía características específicas.
8.2. Jesus Cristo
Em sua teologia, Jesus Cristo ocupa posição central.
Swedenborg interpreta a unidade divina de modo a reconhecer em Jesus Cristo a manifestação do único Deus.
Essa formulação não corresponde à doutrina tradicional de três pessoas divinas distintas em uma só essência, conforme o Cristianismo trinitário histórico.
8.3. A Trindade reinterpretada
Swedenborg apresenta uma compreensão da Trindade relacionada aos diferentes aspectos de uma única pessoa divina.
Sua proposta se distingue tanto das formulações católicas e protestantes tradicionais quanto da interpretação kardeciana de Jesus como modelo de perfeição moral.
8.4. O significado religioso
A teologia de Swedenborg não é simplesmente uma filosofia espiritualista sem referência cristã.
Seu sistema está profundamente ligado à Bíblia e à identidade de Jesus Cristo.
Por isso, classificá-lo apenas como precursor da mediunidade seria insuficiente.
9. A vida após a morte segundo Swedenborg
A descrição da existência depois da morte constitui uma das partes mais conhecidas de sua produção.
Swedenborg afirmava que a personalidade humana continuaria existindo após o falecimento do organismo físico.
A pessoa preservaria sua identidade e passaria a experimentar uma realidade espiritual.
9.1. Continuidade da consciência
A morte não representaria o desaparecimento da individualidade.
O ser humano continuaria consciente.
9.2. O corpo espiritual
Swedenborg descreve a existência de um corpo espiritual.
Esse corpo não seria idêntico ao organismo material, embora permitisse ao indivíduo perceber-se como uma pessoa completa.
9.3. Relações pessoais
Segundo seus relatos, os Espíritos poderiam reconhecer pessoas conhecidas e estabelecer relações.
O mundo espiritual seria habitado por comunidades.
9.4. Ambientes e paisagens
A existência após a morte incluiria habitações, caminhos, paisagens e outros elementos percebidos pelos habitantes.
Essas descrições aparecem especialmente em O Céu e o Inferno.
9.5. O problema da comprovação
As descrições possuem significado religioso e histórico.
Entretanto, não existem evidências científicas estabelecidas que permitam confirmar sua organização objetiva conforme apresentada por Swedenborg.
A semelhança entre determinadas narrativas espirituais também não constitui, isoladamente, demonstração de sua realidade externa.
10. O mundo dos Espíritos: uma condição intermediária
Swedenborg apresenta uma distinção entre o céu, o inferno e um mundo intermediário dos Espíritos.
Segundo sua interpretação, os indivíduos passariam inicialmente por esse mundo depois da morte.
Ali, sua natureza interior se manifestaria progressivamente.
10.1. O reconhecimento da própria condição
Swedenborg descreve pessoas que inicialmente conservariam características muito semelhantes às da vida terrestre.
Algumas demorariam a compreender plenamente sua nova situação.
10.2. A manifestação do caráter
A vida espiritual revelaria, segundo sua doutrina, as disposições morais e afetivas desenvolvidas durante a existência corporal.
10.3. A organização em comunidades
Os Espíritos se aproximariam daqueles com quem possuíssem afinidades.
Essas relações seriam determinadas por tendências internas, especialmente por aquilo que Swedenborg denomina amores dominantes.
10.4. A diferença em relação à erraticidade espírita
No Espiritismo de Kardec, a condição do Espírito entre as encarnações relaciona-se ao progresso e à possibilidade de novas existências corporais.
Swedenborg não estrutura seu sistema da mesma maneira.
Seu mundo intermediário participa de uma trajetória que conduz à condição espiritual definitiva no céu ou no inferno.
Portanto, não devemos equiparar automaticamente o mundo dos Espíritos de Swedenborg à erraticidade kardeciana.
11. Anjos e demônios: uma concepção particular
Swedenborg desenvolveu uma interpretação segundo a qual os anjos e os habitantes do inferno teriam sido anteriormente seres humanos.
Essa concepção difere de determinadas teologias que apresentam os anjos como uma categoria de seres criada separadamente da humanidade.
11.1. Os anjos
Na interpretação de Swedenborg, os anjos seriam indivíduos que viveram corporalmente e passaram a integrar comunidades celestiais.
11.2. Os habitantes do inferno
Da mesma forma, os habitantes infernais seriam pessoas que desenvolveram disposições contrárias ao amor e à vida moral.
11.3. A relação com a conduta humana
O destino espiritual estaria profundamente relacionado à maneira de viver e às escolhas realizadas durante a existência terrestre.
11.4. A aproximação com Kardec
O Espiritismo também interpreta anjos e demônios de maneira distinta de determinadas concepções cristãs tradicionais.
Na doutrina kardeciana, não constituem espécies de seres criadas para destinos eternamente separados.
Entretanto, a semelhança não elimina a diferença fundamental sobre progresso e irreversibilidade das condições espirituais.
12. Céu e inferno: aproximações e divergências com Kardec
Este é um dos pontos mais importantes do estudo comparativo.
Swedenborg descreve o céu e o inferno como realidades espirituais correspondentes à natureza interior dos indivíduos.
Essa interpretação apresenta certa aproximação temática com a valorização das condições morais no Espiritismo.
Entretanto, as consequências doutrinárias são diferentes.
12.1. O céu segundo Swedenborg
O céu é apresentado como uma realidade de comunhão, ordem e amor.
Seus habitantes participariam de comunidades organizadas conforme suas disposições espirituais.
12.2. O inferno segundo Swedenborg
O inferno seria habitado por indivíduos cujas tendências interiores estivessem orientadas para o egoísmo e o mal.
Swedenborg não descreve simplesmente um sistema no qual Deus imporia arbitrariamente sofrimento físico.
A condição espiritual estaria relacionada às escolhas e ao caráter.
12.3. A permanência das condições
Apesar dessa interpretação moral, Swedenborg conservava a ideia de destinos espirituais duradouros e definitivos após o processo de passagem pelo mundo dos Espíritos.
Não apresentava um sistema de sucessivas reencarnações destinado ao aperfeiçoamento de todos os Espíritos.
12.4. A posição kardeciana
Kardec rejeitou a concepção de penas eternas imutáveis como destino definitivo.
Em sua doutrina, o Espírito conserva a possibilidade de progresso.
O arrependimento, a reparação e as novas existências participariam desse processo.
12.5. Por que não são sistemas equivalentes?
Os dois autores atribuem importância à condição moral da pessoa após a morte.
Entretanto, Swedenborg não desenvolve a mesma concepção de progresso espiritual indefinido e reencarnação.
Essa diferença altera profundamente sua interpretação da justiça divina.
13. Swedenborg ensinava a reencarnação?
Não no sentido apresentado por Allan Kardec.
Essa distinção precisa ser preservada com especial cuidado.
Swedenborg descreve a continuidade da individualidade no mundo espiritual depois da morte.
Entretanto, não estabelece como princípio a sucessão de existências corporais terrestres.
Sua teologia organiza o destino humano a partir de uma existência corporal seguida pela passagem ao mundo espiritual e pela consolidação de sua condição.
13.1. A existência terrestre
Na interpretação de Swedenborg, a vida corporal possui importância decisiva para a formação moral do indivíduo.
13.2. A continuidade espiritual
Após a morte, a pessoa continua existindo em outra condição.
Entretanto, essa continuidade não é explicada por retornos sucessivos ao nascimento físico.
13.3. As lembranças aparentemente provenientes de outras vidas
Swedenborg apresentou interpretações relacionadas à influência de Espíritos sobre a memória e os pensamentos dos indivíduos.
Isso não equivale à afirmação kardeciana de reencarnação.
13.4. A posição de Kardec
Em O Livro dos Espíritos, a pluralidade das existências é um fundamento central.
O Espírito retornaria à existência corporal como parte de seu progresso.
Essa diferença impede classificar Swedenborg como um codificador antecipado da Doutrina Espírita.
14. O Juízo Final e a afirmação de um acontecimento espiritual em 1757
Swedenborg desenvolveu uma interpretação própria do Juízo Final.
Em sua obra de 1758, afirmou que um julgamento espiritual decisivo havia ocorrido em 1757.
14.1. Uma interpretação distinta do fim material do mundo
O acontecimento não seria simplesmente a destruição física do planeta.
Segundo sua teologia, corresponderia a uma reorganização do mundo espiritual.
14.2. A Nova Jerusalém
A ideia de uma nova ordem religiosa e espiritual aparece associada a esse acontecimento.
Swedenborg interpretava a Nova Jerusalém como expressão de uma renovação da vida religiosa cristã.
14.3. A afirmação de ter testemunhado o acontecimento
O autor apresentava sua descrição como baseada em experiências espirituais.
Entretanto, a investigação histórica não dispõe de meios para confirmar a ocorrência objetiva de um julgamento sobrenatural em 1757.
14.4. A diferença em relação ao Espiritismo
Kardec também discutiu transformação espiritual e progresso da humanidade.
Entretanto, sua abordagem não corresponde simplesmente à concepção swedenborgiana de um Juízo Final já realizado.
As doutrinas precisam ser estudadas separadamente.
15. A moralidade e a caridade em Swedenborg
Um dos aspectos importantes de seu pensamento é a valorização do comportamento moral.
Swedenborg atribui relevância à relação entre fé e vida prática.
15.1. A fé não deveria limitar-se a declarações
Em sua concepção, a religiosidade exige consequências na conduta.
A vida moral possui importância decisiva.
15.2. O amor ao próximo
A caridade aparece relacionada ao compromisso com o bem e com a convivência humana.
15.3. O desenvolvimento interior
Swedenborg valoriza a transformação das disposições pessoais.
Sua teologia procura relacionar pensamento, vontade e comportamento.
15.4. A aproximação com Kardec
A caridade também ocupa posição central no Espiritismo.
Entretanto, a existência de princípios morais semelhantes não significa identidade entre os sistemas.
Diferentes tradições religiosas podem valorizar a benevolência e a responsabilidade sem compartilhar a mesma cosmologia.
16. Swedenborg possuía mediunidade segundo a classificação espírita?
Para responder, precisamos distinguir duas perspectivas.
A primeira é a compreensão que Swedenborg apresentava de suas próprias experiências.
A segunda é a classificação posteriormente utilizada por Kardec.
16.1. A interpretação do próprio Swedenborg
Swedenborg considerava suas experiências uma abertura espiritual relacionada a uma missão religiosa.
Não se apresentava como participante de um movimento espírita organizado, que ainda não existia.
16.2. A classificação kardeciana
Kardec utilizaria termos como vidência, audição espiritual e êxtase para caracterizar experiências semelhantes às descritas por Swedenborg.
Em sua avaliação, o autor sueco possuía faculdades que poderiam ser compreendidas dentro da classificação espírita.
16.3. O conceito de médium natural
Em documentos associados a Kardec, Swedenborg é descrito como possuidor de faculdades espontâneas.
A expressão indica uma capacidade que, segundo a interpretação espírita, não dependeria necessariamente de procedimentos magnéticos para manifestar-se.
16.4. Um limite importante
Classificar historicamente Swedenborg segundo a terminologia kardeciana não significa que ele próprio adotasse essa identidade.
Também não demonstra cientificamente a origem espiritual das experiências.
17. Os relatos de clarividência atribuídos a Swedenborg
A biografia de Swedenborg reúne episódios que seus admiradores interpretaram como demonstrações de percepção extraordinária.
Entre os mais conhecidos estão relatos relacionados a um incêndio em Estocolmo, a uma comunicação dirigida à rainha da Suécia e à localização de um documento.
Esses episódios contribuíram para sua reputação pública.
Entretanto, exigem avaliação histórica cuidadosa.
17.1. O incêndio de Estocolmo, em 1759
Segundo relatos difundidos posteriormente, Swedenborg estaria em Gotemburgo quando descreveu um incêndio ocorrido em Estocolmo, cidade situada a centenas de quilômetros.
A narrativa afirma que teria fornecido informações antes da chegada de notícias pelos meios comuns de comunicação.
O episódio tornou-se famoso.
Entretanto, as versões disponíveis precisam ser examinadas quanto à data, à proximidade dos testemunhos e às possibilidades de transmissão de informações.
A notoriedade do relato não constitui, isoladamente, comprovação de percepção extrassensorial.
17.2. A rainha Luísa Ulrica
Outro episódio envolve uma mensagem supostamente relacionada ao irmão falecido da rainha Luísa Ulrica.
A narrativa apresenta diferentes versões históricas.
Algumas favorecem uma interpretação extraordinária.
Outras sugerem possibilidades de explicação por informações conhecidas ou obtidas por meios comuns.
Allan Kardec também reproduziu uma discussão sobre esse acontecimento em seu artigo de 1859.
17.3. O documento perdido
Uma terceira narrativa relaciona Swedenborg à localização de um recibo ou documento que uma viúva procurava.
As diferentes versões do episódio também exigem análise crítica.
17.4. O valor e o limite dos testemunhos
Os relatos são relevantes para compreender a reputação histórica de Swedenborg.
Entretanto, precisamos distinguir a existência de uma tradição narrativa da comprovação de seu mecanismo sobrenatural.
Testemunhos devem ser avaliados segundo sua origem, proximidade temporal, independência e possibilidade de explicações alternativas.
18. A recepção crítica: Immanuel Kant e Swedenborg
Um dos acontecimentos intelectuais mais importantes relacionados a Swedenborg foi a crítica formulada por Immanuel Kant.
Em 1766, Kant publicou Träume eines Geistersehers, erläutert durch Träume der Metaphysik.
O título costuma ser traduzido como Sonhos de um Visionário Explicados por Sonhos da Metafísica.
18.1. O interesse inicial
Kant tomou conhecimento de relatos relacionados às capacidades extraordinárias de Swedenborg.
As narrativas despertaram seu interesse.
18.2. A leitura dos escritos
Posteriormente, Kant examinou obras do autor sueco.
Sua reação foi fortemente crítica.
18.3. O problema filosófico
Kant utilizou o assunto para discutir os limites das afirmações metafísicas e o perigo de atribuir conhecimento seguro a realidades que não podiam ser demonstradas.
18.4. A importância de sua crítica
O episódio possui valor especial porque mostra que Swedenborg já era objeto de debate filosófico muito antes do surgimento do Espiritismo.
Também demonstra que seu pensamento não foi recebido de maneira uniforme pelos intelectuais europeus.
18.5. O cuidado com interpretações posteriores
Alguns autores procuraram atribuir à crítica de Swedenborg papel decisivo na formação de toda a filosofia crítica de Kant.
Essa tese é discutida na historiografia especializada.
Não deve ser apresentada como consenso.
19. A Nova Igreja: o movimento religioso associado a Swedenborg
Embora seus escritos tenham dado origem a comunidades religiosas, Swedenborg não fundou pessoalmente uma Igreja organizada durante sua vida nos moldes desenvolvidos depois.
Após sua morte, leitores e seguidores passaram a organizar grupos dedicados ao estudo de suas obras.
19.1. A formação de comunidades
Na Inglaterra, a circulação de suas ideias favoreceu a reunião de leitores interessados em sua interpretação bíblica.
19.2. A institucionalização
Durante a década de 1780, começaram a surgir formas mais organizadas de associação.
Em 1787, desenvolveu-se uma separação religiosa que contribuiria para a formação da chamada Nova Igreja.
19.3. A identidade swedenborgiana
A tradição é conhecida também por denominações relacionadas à Nova Jerusalém ou à Igreja de Swedenborg.
Entretanto, suas comunidades apresentam histórias institucionais próprias.
19.4. Não confundir com o Espiritismo
A Nova Igreja não constitui uma instituição kardecista.
Sua base teológica é a interpretação cristã de Swedenborg.
O Espiritismo organizado por Kardec surgiu posteriormente e possui fundamentos distintos.
20. Swedenborg e o espiritualismo moderno
A influência de Swedenborg ultrapassou as comunidades religiosas diretamente relacionadas à sua teologia.
Suas descrições do mundo espiritual despertaram interesse entre escritores, filósofos, reformadores e participantes de movimentos espiritualistas.
20.1. A possibilidade de comunicação espiritual
A ideia de que pessoas falecidas poderiam permanecer conscientes e comunicar-se com os vivos já aparecia em diferentes tradições anteriores.
Swedenborg contribuiu para dar nova visibilidade a essa concepção em determinados ambientes intelectuais.
20.2. A influência das descrições espirituais
Sua apresentação de sociedades, habitações e relações no mundo espiritual ofereceu um modelo narrativo detalhado.
Essas descrições influenciariam escritores e espiritualistas posteriores.
20.3. O interesse pela experiência individual
Swedenborg atribuía grande importância àquilo que considerava suas próprias observações espirituais.
Essa característica contribuiu para o desenvolvimento de uma cultura de interesse por experiências extraordinárias.
20.4. As diferenças entre seguidores
Nem todos os participantes do espiritualismo moderno aceitaram integralmente sua teologia.
Também existiram swedenborgianos que rejeitaram práticas de comunicação mediúnica organizadas por outros movimentos.
Essa diversidade impede a afirmação de que o espiritualismo moderno teria surgido como simples continuação institucional da Nova Igreja.
21. Andrew Jackson Davis e a influência de Swedenborg
Andrew Jackson Davis (1826–1910) ocupa posição importante na história do espiritualismo moderno norte-americano.
Sua produção antecedeu os acontecimentos associados às irmãs Fox, em 1848.
Em 1847, publicou The Principles of Nature.
21.1. A formação de Davis
Davis relatava experiências de transe e percepção extraordinária.
Sua trajetória desenvolveu-se em um ambiente relacionado ao magnetismo e ao espiritualismo norte-americano.
21.2. A influência atribuída a Swedenborg
Davis afirmava ter recebido orientação espiritual de personagens, entre eles Swedenborg.
Sua obra apresenta temas semelhantes aos encontrados na literatura swedenborgiana.
21.3. A avaliação histórica
A existência de semelhanças conceituais e relatos de contato espiritual não demonstra que tenha ocorrido comunicação real com Swedenborg após sua morte.
Também não significa que toda a filosofia de Davis tenha sido simplesmente copiada.
A análise exige examinar textos, influências e contextos.
21.4. O significado para a história do Espiritismo
Davis representa um elo importante entre determinadas tradições anteriores e o espiritualismo norte-americano do século XIX.
Entretanto, não deve ser confundido com Allan Kardec.
Os dois autores desenvolveram projetos diferentes, apesar de compartilharem assuntos relacionados à sobrevivência e à vida espiritual.
22. O que Allan Kardec escreveu sobre Swedenborg em 1859?
Este é o núcleo documental mais importante de todo o artigo.
Na edição de novembro de 1859 da Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos, Kardec publicou uma matéria intitulada Swedenborg.
O texto inclui informações biográficas, apresentação da doutrina e avaliação crítica.
Também foi publicada uma comunicação mediúnica atribuída ao Espírito do autor sueco.
22.1. O reconhecimento de sua importância
Kardec apresentou Swedenborg como uma personalidade intelectualmente relevante.
Destacou seus conhecimentos científicos, sua reputação e sua participação na divulgação de ideias sobre o mundo espiritual.
Não o tratou simplesmente como impostor ou personagem sem importância.
22.2. A crítica ao sistema doutrinário
Ao mesmo tempo, Kardec apontou problemas na teoria das correspondências e em outras interpretações teológicas de Swedenborg.
Para o codificador, o reconhecimento de possíveis faculdades espirituais de um indivíduo não obrigaria a aceitar todas as suas conclusões.
Essa distinção é essencial para a Doutrina Espírita.
22.3. O valor moral e intelectual
Kardec reconheceu qualidades pessoais e intelectuais de Swedenborg.
Contudo, separou esse reconhecimento da validade de seu sistema religioso.
22.4. Uma lição metodológica
A análise demonstra que Kardec não considerava a reputação de um visionário suficiente para estabelecer a autoridade de seus ensinamentos.
Uma pessoa poderia apresentar experiências consideradas espirituais e, ainda assim, interpretá-las incorretamente.
Esse princípio possui importância para o estudo de qualquer produção mediúnica.
23. A comunicação atribuída ao Espírito de Swedenborg
Na mesma edição de novembro de 1859, foi publicada uma comunicação atribuída ao Espírito de Swedenborg.
O texto está relacionado a uma sessão realizada pela Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas em setembro daquele ano.
Segundo a documentação, foram apresentadas perguntas sobre suas experiências e doutrina.
23.1. O reconhecimento de erros
Na comunicação publicada, o comunicante atribuído a Swedenborg reconhece erros em determinadas concepções que havia defendido durante a vida.
Entre os assuntos discutidos estão as penas eternas e a interpretação do mundo dos anjos.
23.2. A questão das correspondências
Uma das perguntas trata diretamente da teoria das correspondências.
A resposta atribuída ao comunicante rejeita a validade da explicação anteriormente apresentada.
23.3. A alegada aparição divina
O diálogo também retoma o episódio da figura que Swedenborg havia interpretado como manifestação de Deus.
Segundo a resposta publicada, a identificação teria sido equivocada.
23.4. O reconhecimento da própria imaginação
Outro ponto importante é a admissão, no texto atribuído ao Espírito, de que a imaginação e as interpretações individuais poderiam ter influenciado determinados relatos.
23.5. O que esse documento comprova historicamente?
A publicação demonstra que Kardec apresentou uma comunicação atribuída a Swedenborg e a utilizou no contexto de uma avaliação doutrinária.
Entretanto, não demonstra independentemente que o próprio Swedenborg tenha realizado essas declarações após a morte.
A autoria espiritual é uma interpretação pertencente ao fenômeno religioso examinado.
23.6. Por que essa cautela é necessária?
Seria incorreto apresentar a comunicação como uma retratação histórica que Swedenborg realizou em vida.
Ele havia morrido em 1772.
O texto foi publicado em 1859, no contexto de uma reunião mediúnica.
A distinção entre autor histórico, comunicante alegado e interpretação editorial precisa permanecer explícita.
24. O Catálogo Racional e a avaliação de Swedenborg
Outro documento relevante é o Catálogo Racional de Obras para se Fundar uma Biblioteca Espírita, publicado em 1869.
O catálogo havia sido preparado no contexto das iniciativas editoriais de Kardec.
Sua publicação ocorreu no período imediatamente posterior à morte do codificador, exigindo atenção à história editorial do documento.
A obra apresenta uma avaliação das publicações de Swedenborg e de sua posição em relação ao Espiritismo.
24.1. A classificação como precursor
O catálogo reconhece Swedenborg como um dos antecedentes importantes do Espiritismo.
Essa classificação não significa que sua doutrina fosse considerada integralmente correta.
24.2. O problema das observações individuais
O documento destaca que Swedenborg desenvolveu sua interpretação principalmente a partir das próprias experiências.
Essa circunstância é apresentada como uma limitação.
24.3. A comparação com o método kardeciano
A proposta espírita é apresentada como resultado da comparação de comunicações consideradas independentes, obtidas por diferentes médiuns.
No entendimento do movimento, essa diversidade de fontes ajudaria a reduzir o risco de aceitar ideias pessoais como princípios gerais.
24.4. O limite metodológico
A concordância entre relatos não comprova automaticamente uma causa espiritual.
Entretanto, a distinção é importante para compreender aquilo que Kardec pretendia estabelecer como diferença entre sua proposta e o sistema de Swedenborg.
24.5. A avaliação final
O catálogo reconhece semelhanças entre determinados assuntos, especialmente as descrições da vida espiritual.
Entretanto, ressalta divergências doutrinárias.
Sua conclusão é compatível com a posição geral apresentada na Revista Espírita: Swedenborg possui importância histórica, mas não constitui autoridade doutrinária equivalente à codificação.
25. O princípio kardeciano: não aceitar uma revelação apenas pela autoridade de quem a apresenta
A avaliação de Swedenborg ajuda a compreender uma característica importante do pensamento de Kardec.
O codificador defendia que uma comunicação atribuída aos Espíritos precisava ser examinada.
A aparência extraordinária, a reputação do comunicante ou a beleza das afirmações não bastariam para garantir sua veracidade.
25.1. O problema das experiências individuais
Uma pessoa pode interpretar suas próprias experiências segundo crenças anteriores.
Essas interpretações podem influenciar as narrativas produzidas.
25.2. A possibilidade de erro
Kardec admitia que um Espírito comunicante poderia transmitir informações equivocadas.
Isso significa que a origem espiritual alegada não garantiria conhecimento absoluto.
25.3. A independência das comunicações
A codificação valorizava a comparação entre ensinamentos obtidos por diferentes intermediários.
25.4. O exame racional
Também atribuía importância à coerência e ao raciocínio.
Entretanto, uma doutrina internamente coerente não está automaticamente demonstrada como verdadeira.
25.5. A aplicação ao caso Swedenborg
A posição de Kardec demonstra que reconhecer Swedenborg como precursor não obriga o estudioso espírita a aceitar seus ensinamentos sobre correspondências, penas eternas ou organização definitiva do mundo espiritual.
A fidelidade doutrinária exige preservar essa diferença.
26. Swedenborg e Kardec: comparação dos princípios fundamentais
A comparação permite identificar aproximações e divergências de maneira mais precisa.
| Tema | Emanuel Swedenborg | Allan Kardec |
|---|---|---|
| Contexto histórico | Suécia e Europa do século XVIII | França do século XIX |
| Formação | Ciência, engenharia, anatomia e teologia | Educação, pedagogia e investigação de fenômenos |
| Fonte principal dos ensinamentos espirituais | Experiências visionárias atribuídas a revelação pessoal | Comunicações atribuídas a Espíritos, organizadas e comparadas |
| Sobrevivência da consciência | Afirma | Afirma |
| Continuidade da identidade | Afirma | Afirma |
| Relações com Espíritos | Afirma a possibilidade de contato e percepção | Afirma a possibilidade de comunicação mediúnica |
| Corpo espiritual | Descreve um corpo espiritual | Desenvolve o conceito de perispírito |
| Mundo espiritual | Comunidades, céu, inferno e mundo intermediário | Diferentes condições espirituais e erraticidade |
| Reencarnação | Não integra seu sistema como princípio | Princípio fundamental |
| Céu e inferno | Condições espirituais com destinos definitivos | Condições relacionadas ao progresso e à responsabilidade moral |
| Penas eternas | Conserva a permanência de destinos infernais | Rejeita penas eternas imutáveis |
| Anjos | Indivíduos humanos que passaram à condição angelical | Espíritos em condição elevada |
| Jesus | Centro da teologia do único Deus | Modelo máximo de perfeição moral |
| Escrituras | Interpretação espiritual por correspondências | Interpretação específica, especialmente moral, dos Evangelhos |
| Revelação | Experiência pessoal de missão divina | Revelação interpretada dentro da codificação e de seus critérios |
| Método | Predominância da experiência individual | Comparação, classificação e exame racional propostos por Kardec |
| Caridade | Elemento moral fundamental | Princípio central da ética espírita |
A tabela apresenta tendências gerais dos dois sistemas.
Não substitui a leitura dos textos originais.
27. As semelhanças não comprovam dependência direta
Uma questão importante é determinar até que ponto Swedenborg influenciou diretamente as formulações de Kardec.
A existência de temas semelhantes não demonstra, por si só, que um autor tenha retirado suas ideias do outro.
A sobrevivência da alma, a comunicação espiritual e as descrições do mundo após a morte possuem antecedentes mais antigos.
Também circulavam em diferentes movimentos religiosos e filosóficos.
27.1. Influência cultural
É possível reconhecer que Swedenborg contribuiu para ampliar a circulação de determinadas concepções espiritualistas.
27.2. Relações documentadas
Kardec efetivamente conheceu e examinou informações sobre Swedenborg.
Seu artigo de 1859 demonstra isso.
27.3. Apropriação seletiva
O reconhecimento de determinadas semelhanças não significa aceitação integral das ideias.
Kardec criticou pontos centrais da doutrina swedenborgiana.
27.4. A necessidade de evitar genealogias simplificadas
Seria inadequado afirmar que o Espiritismo surgiu simplesmente da soma das ideias de Mesmer, Puységur e Swedenborg.
Esses autores pertencem ao conjunto de antecedentes históricos.
A codificação apresenta uma construção doutrinária própria.
28. Swedenborg e o desenvolvimento da literatura espiritualista
Uma contribuição importante de Swedenborg foi desenvolver uma literatura detalhada sobre a vida espiritual.
Essa forma de escrita teria influência cultural duradoura.
28.1. A descrição de ambientes invisíveis
Swedenborg não se limitava a afirmar genericamente a existência de um mundo espiritual.
Procurava descrever sua organização.
28.2. Personagens e comunidades
Seus escritos apresentam relações entre seres espirituais e diferentes tipos de sociedade.
28.3. A continuidade da vida cotidiana
Determinados elementos de suas narrativas apresentam semelhanças com experiências humanas comuns.
A existência de habitações, atividades e relações pessoais confere concretude à sua representação do além.
28.4. Relações com a literatura posterior
Outros movimentos espiritualistas também desenvolveriam narrativas detalhadas sobre a vida espiritual.
Entretanto, a semelhança temática não comprova influência textual direta em todos os casos.
28.5. Swedenborg e André Luiz
É possível identificar aproximações gerais entre as descrições espirituais de Swedenborg e certos temas encontrados posteriormente na literatura atribuída a André Luiz.
Entre eles estão a continuidade da identidade, as comunidades espirituais e a organização de atividades após a morte.
Entretanto, as obras pertencem a contextos diferentes e apresentam concepções doutrinárias distintas.
Não seria correto afirmar, sem investigação textual específica, que André Luiz simplesmente reproduziu Swedenborg.
Essa comparação receberá atenção nos artigos dedicados à série A Vida no Mundo Espiritual.
29. A questão científica: relatos de visões comprovam o mundo espiritual?
A investigação contemporânea precisa distinguir três níveis.
O primeiro envolve a existência histórica de relatos.
O segundo envolve a experiência subjetiva de quem os produziu.
O terceiro envolve a origem objetiva atribuída a essas experiências.
29.1. O relato histórico
Podemos documentar que Swedenborg escreveu sobre visões e comunicações.
29.2. A experiência subjetiva
Os textos indicam que Swedenborg interpretava essas experiências como acontecimentos reais.
Entretanto, não é possível reconstruir integralmente seus estados mentais apenas por documentos históricos.
29.3. A explicação sobrenatural
A identificação das experiências como comunicação com anjos ou Espíritos não constitui uma conclusão cientificamente estabelecida.
29.4. O problema do diagnóstico retrospectivo
Também seria inadequado apresentar Swedenborg como portador de um transtorno mental específico sem documentação clínica suficiente.
Relatos religiosos históricos não permitem, isoladamente, estabelecer diagnósticos seguros.
29.5. A investigação crítica
O estudo pode examinar conteúdo, contexto, influências culturais e processos psicológicos possíveis.
Entretanto, a avaliação precisa reconhecer as limitações das fontes disponíveis.
30. A importância de Swedenborg para o estudo espírita
Mesmo quando determinadas proposições de Swedenborg divergem da codificação, seu pensamento permanece relevante para a história do Espiritismo.
Sua trajetória demonstra que as discussões sobre continuidade da consciência e comunicação espiritual antecederam o século XIX.
Também revela como essas concepções podiam ser desenvolvidas por indivíduos com formação científica.
Entretanto, a formação intelectual de um autor não comprova automaticamente suas afirmações espirituais.
30.1. Um antecedente importante
Swedenborg ajudou a tornar mais conhecidas determinadas concepções sobre o mundo dos Espíritos.
30.2. Um sistema próprio
Sua teologia possui fundamentos que não devem ser confundidos com o Espiritismo.
30.3. Um exemplo de revelação pessoal
Seus escritos apresentam o problema da autoridade atribuída à experiência individual.
30.4. Um caso analisado por Kardec
A avaliação de 1859 demonstra que o codificador reconhecia sua importância sem aceitar integralmente sua doutrina.
30.5. Uma oportunidade de estudo comparativo
O contraste entre os autores permite compreender melhor a identidade kardeciana.
Especialmente quanto à reencarnação, ao progresso, às penas eternas e à autoridade das comunicações.
31. Equívocos frequentes sobre Swedenborg e o Espiritismo
Equívoco 1 — Swedenborg fundou o Espiritismo
Não.
Sua produção teológica antecede a codificação, mas pertence a uma tradição religiosa própria.
Equívoco 2 — Swedenborg ensinava exatamente a mesma doutrina de Kardec
Não.
Existem divergências fundamentais, especialmente sobre reencarnação, céu, inferno e revelação.
Equívoco 3 — Kardec rejeitou completamente Swedenborg
Não.
O codificador reconheceu sua importância histórica e intelectual.
Entretanto, criticou aspectos de sua doutrina.
Equívoco 4 — Kardec aceitou todas as visões de Swedenborg
Não.
O artigo de novembro de 1859 demonstra avaliação crítica.
Equívoco 5 — A comunicação de 1859 constitui retratação histórica comprovada
Não.
É uma comunicação mediúnica atribuída ao Espírito de Swedenborg, publicada décadas depois da morte do autor.
Equívoco 6 — Swedenborg comprovou cientificamente a vida após a morte
Não.
Seus relatos possuem importância religiosa e histórica, mas não constituem comprovação científica estabelecida.
Equívoco 7 — A Nova Igreja é uma instituição kardecista
Não.
Sua tradição está relacionada à teologia de Swedenborg.
Equívoco 8 — Swedenborg ensinava a reencarnação da mesma maneira que Kardec
Não.
A pluralidade das existências corporais não constitui princípio de sua teologia.
Equívoco 9 — As semelhanças com André Luiz demonstram cópia ou identidade de autoria espiritual
Não.
A comparação histórica exige evidências textuais e documentais específicas.
Equívoco 10 — Ser precursor significa possuir autoridade doutrinária equivalente à codificação
Não.
A classificação histórica de um autor como precursor não transforma suas obras em parte da codificação de Allan Kardec.
32. Cronologia: de Swedenborg ao surgimento do Espiritismo
| Ano | Acontecimento | Significado |
|---|---|---|
| 1688 | Nascimento de Emanuel Swedberg, em Estocolmo | Início de sua trajetória |
| 1709 | Conclusão dos estudos em Uppsala | Formação universitária |
| 1716 | Atuação no Conselho de Minas | Consolidação profissional |
| 1719 | Elevação da família à nobreza | Adoção do sobrenome Swedenborg |
| 1734 | Publicação de Opera Philosophica et Mineralia | Desenvolvimento da produção científica |
| 1740–1741 | Publicação de Oeconomia Regni Animalis | Estudos sobre organismo, cérebro e alma |
| 1743–1744 | Registros de sonhos e crise espiritual | Início da transformação religiosa |
| 1745 | Experiências visionárias em vigília | Marco de sua vocação teológica |
| 1747 | Afastamento das atividades no Conselho de Minas | Dedicação à produção religiosa |
| 1749–1756 | Publicação de Arcana Coelestia | Desenvolvimento da teoria das correspondências |
| 1757 | Juízo Final alegado por Swedenborg | Elemento de sua teologia |
| 1758 | Publicação de O Céu e o Inferno e outras obras | Sistematização do mundo espiritual |
| 1759 | Relatos associados ao incêndio de Estocolmo | Formação da reputação de visionário |
| 1763 | Publicação de Amor e Sabedoria Divinos | Desenvolvimento teológico |
| 1764 | Publicação de Divina Providência | Reflexões sobre liberdade e ação divina |
| 1766 | Publicação de Apocalipse Revelado | Interpretação bíblica por correspondências |
| 1766 | Kant publica Sonhos de um Visionário | Crítica filosófica às experiências de Swedenborg |
| 1768 | Publicação de Amor Conjugal | Desenvolvimento de sua moral religiosa |
| 1771 | Publicação de A Verdadeira Religião Cristã | Síntese teológica |
| 1772 | Falecimento de Swedenborg, em Londres | Encerramento de sua trajetória |
| 1787 | Desenvolvimento institucional da Nova Igreja | Organização religiosa posterior |
| 1847 | Andrew Jackson Davis publica The Principles of Nature | Expansão do espiritualismo norte-americano |
| 1848 | Acontecimentos associados às irmãs Fox | Marco convencional do espiritualismo moderno |
| 1857 | Kardec publica O Livro dos Espíritos | Início público da codificação |
| 1859 | Kardec publica o estudo sobre Swedenborg na Revista Espírita | Avaliação crítica direta do precursor |
| 1869 | Publicação do Catálogo Racional | Referência bibliográfica sobre Swedenborg e outros antecedentes |
Conclusão — Um precursor importante, mas não um codificador antecipado
Emanuel Swedenborg foi uma das figuras mais singulares da história intelectual europeia do século XVIII.
Sua trajetória reuniu formação científica, atuação administrativa, investigação filosófica e uma extensa produção teológica.
Durante décadas, dedicou-se ao estudo da natureza e do organismo humano.
Posteriormente, passou a afirmar que havia recebido uma missão espiritual e que seus sentidos lhe permitiam conhecer realidades invisíveis.
A partir dessa interpretação, desenvolveu uma doutrina própria.
Seus livros descreviam a continuidade da consciência após a morte, a existência de comunidades espirituais, relações entre anjos e seres humanos e uma organização específica do céu e do inferno.
Também apresentavam uma interpretação particular da Bíblia, fundamentada na teoria das correspondências.
Essas ideias ultrapassaram seu ambiente original.
Influenciaram movimentos religiosos, escritores, filósofos e participantes do espiritualismo moderno.
Sua importância histórica está documentada.
Entretanto, o reconhecimento desse legado não significa que suas afirmações sobrenaturais estejam cientificamente demonstradas.
Tampouco significa que sua doutrina seja equivalente ao Espiritismo de Allan Kardec.
A comparação revelou diferenças fundamentais.
Swedenborg não desenvolveu a reencarnação como princípio de seu sistema.
Sua interpretação do destino espiritual conservava condições definitivas de céu e inferno.
Sua teologia atribuía a Jesus Cristo uma natureza divina distinta da interpretação kardeciana.
E a autoridade de seus escritos estava especialmente relacionada às experiências visionárias que afirmava possuir.
Kardec, por sua vez, procurou construir um corpo doutrinário baseado em comunicações atribuídas a diferentes Espíritos e em critérios próprios de comparação e exame racional.
Esses critérios também precisam ser avaliados historicamente, sem confundi-los automaticamente com protocolos científicos contemporâneos.
Entretanto, constituem uma diferença importante entre os dois projetos.
A documentação de novembro de 1859 demonstra que Kardec reconhecia o valor histórico de Swedenborg.
Não o tratou como personagem irrelevante ou necessariamente desonesto.
Ao mesmo tempo, não aceitou integralmente suas explicações.
Criticou a teoria das correspondências, questionou determinadas interpretações religiosas e publicou uma comunicação atribuída ao Espírito do autor, na qual aparecem afirmações de reconhecimento de erros.
Essa comunicação possui significado dentro da história da Revista Espírita e de seu sistema religioso.
Entretanto, não pode ser apresentada como retratação histórica comprovada de Swedenborg.
A distinção é indispensável para uma pesquisa confiável.
O estudo também demonstrou que Swedenborg participou de uma transformação mais ampla da cultura espiritualista europeia.
Seus relatos contribuíram para tornar mais conhecidas concepções sobre a sobrevivência individual, a comunicação com seres espirituais e a organização da vida após a morte.
Entretanto, essas ideias já possuíam antecedentes antigos e continuariam a desenvolver-se por caminhos diferentes.
O Espiritismo surgiu dentro desse processo histórico, mas adquiriu identidade própria.
Swedenborg não foi o fundador do Espiritismo de Allan Kardec. Foi um precursor do espiritualismo moderno cuja contribuição histórica o próprio codificador reconheceu, preservando, porém, diferenças fundamentais entre as duas doutrinas.
Essa é a conclusão mais fiel às fontes.
O reconhecimento de um precursor não exige aceitar todos os seus ensinamentos.
A crítica a determinadas concepções não obriga a negar seu valor intelectual.
E a fidelidade a Kardec exige distinguir aquilo que o codificador efetivamente escreveu das interpretações posteriores de seus seguidores.
Ao compreender Swedenborg, avançamos no conhecimento dos antecedentes do Espiritismo.
O próximo passo será investigar acontecimentos que transformariam o espiritualismo em um movimento público de grandes proporções.
Em 1848, relatos associados às irmãs Fox, nos Estados Unidos, desencadeariam debates, demonstrações e controvérsias que alcançariam diferentes países.
A partir desse ambiente, as práticas de comunicação atribuída aos mortos adquiririam nova visibilidade.
Décadas depois das experiências de Swedenborg, a questão deixaria de concentrar-se predominantemente nas visões de um indivíduo e passaria a envolver numerosos participantes, reuniões públicas, periódicos e organizações.
Essa transformação prepararia parte do cenário histórico no qual Allan Kardec desenvolveria a codificação.
Glossário fundamental
- Emanuel Swedenborg
- cientista, filósofo e teólogo sueco do século XVIII, autor de numerosas obras sobre interpretação bíblica e experiências espirituais.
- Swedenborgianismo
- conjunto de tradições religiosas e filosóficas fundamentadas na interpretação dos escritos de Swedenborg.
- Nova Igreja
- movimento cristão organizado posteriormente à morte de Swedenborg, baseado em sua teologia.
- Correspondências
- conceito swedenborgiano que estabelece relações simbólicas e espirituais entre realidades naturais e espirituais.
- Influxo
- no pensamento de Swedenborg, influência ou relação pela qual a realidade espiritual se comunica com a ordem natural.
- Arcanos Celestes
- principal obra inicial da produção teológica de Swedenborg, dedicada à interpretação espiritual de Gênesis e Êxodo.
- Mundo dos Espíritos
- na teologia swedenborgiana, condição intermediária entre a morte e a integração definitiva ao céu ou ao inferno.
- Revelação pessoal
- experiência interpretada como transmissão de conhecimento divino ou espiritual a determinado indivíduo.
- Visão espiritual
- percepção atribuída à capacidade de conhecer realidades não acessíveis aos sentidos corporais comuns.
- Mediunidade
- segundo a Doutrina Espírita, faculdade pela qual determinados indivíduos funcionariam como intermediários de comunicações dos Espíritos.
- Clarividência
- alegada capacidade de perceber informações sem utilizar os meios sensoriais habituais.
- Reencarnação
- doutrina de sucessivas existências corporais de uma individualidade espiritual, princípio fundamental do Espiritismo kardecista.
- Erraticidade
- na terminologia espírita, condição dos Espíritos desencarnados que ainda estão sujeitos a novas encarnações.
- Penas eternas
- concepção religiosa de consequências definitivas de condenação após a morte, rejeitada pelo Espiritismo de Kardec.
- Controle universal do ensino dos Espíritos
- critério kardeciano de comparação de ensinamentos atribuídos a Espíritos, especialmente quanto à independência e concordância das comunicações.
- Fonte primária
- documento produzido no contexto histórico diretamente relacionado ao acontecimento ou autor investigado.
- Autoria mediúnica atribuída
- identificação de um comunicante espiritual reivindicada dentro de uma experiência mediúnica, que não deve ser confundida com autoria historicamente comprovada.
Referências bibliográficas e documentais
I. Obras originais de Swedenborg
- SWEDENBORG, Emanuel. Arcana Coelestia. Londres, 1749–1756. Obra fundamental para o estudo da teoria das correspondências e de suas interpretações bíblicas.
- SWEDENBORG, Emanuel. De Coelo et Ejus Mirabilibus et de Inferno. Londres, 1758. Conhecida como Heaven and Hell ou O Céu e o Inferno. Referência principal sobre suas descrições da vida após a morte.
- SWEDENBORG, Emanuel. De Ultimo Judicio. Londres, 1758. Obra dedicada à sua concepção do Juízo Final.
- SWEDENBORG, Emanuel. De Nova Hierosolyma et Ejus Doctrina Coelesti. Londres, 1758. Texto sobre a Nova Jerusalém e os princípios de sua renovação religiosa.
- SWEDENBORG, Emanuel. Sapientia Angelica de Divino Amore et de Divina Sapientia. Amsterdã, 1763.
- SWEDENBORG, Emanuel. Sapientia Angelica de Divina Providentia. Amsterdã, 1764.
- SWEDENBORG, Emanuel. Apocalypsis Revelata. Amsterdã, 1766.
- SWEDENBORG, Emanuel. Delitiae Sapientiae de Amore Conjugiali. Amsterdã, 1768.
- SWEDENBORG, Emanuel. Vera Christiana Religio. Amsterdã, 1771.
Consulta às obras, com cronologia editorial e traduções:
https://swedenborg.com/emanuel-swedenborg/writings/
II. Fontes primárias de Allan Kardec
- KARDEC, Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Novembro de 1859. Artigo Swedenborg. Fonte fundamental para a avaliação histórica e doutrinária realizada pelo codificador.
https://www.kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/893/revista-espirita-jornal-de-estudos-psicologicos-1859/4591/novembro/swedenborg - KARDEC, Allan. Revista Espírita. Novembro de 1859. Comunicação de Swedenborg prometida na sessão de 16 de setembro. Documento de comunicação mediúnica atribuída, cuja autoria espiritual não deve ser tomada como historicamente demonstrada.
Consulta no volume de novembro de 1859:
https://www.kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/893/revista-espirita-jornal-de-estudos-psicologicos-1859/4498/novembro - KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1857; edição ampliada de 1860. Referência aos princípios de imortalidade, reencarnação, progresso espiritual, justiça divina e classificação dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 1861. Referência sobre o exame das comunicações, a identidade dos Espíritos e as diferentes manifestações mediúnicas.
- KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. 1865. Referência fundamental para o estudo das divergências entre penas eternas, responsabilidade moral e progresso espiritual.
- CATÁLOGO RACIONAL DE OBRAS PARA SE FUNDAR UMA BIBLIOTECA ESPÍRITA. Paris, 1869. Especialmente a seção de filosofia e história dedicada a Swedenborg. Documento preparado no contexto editorial de Kardec e publicado após sua morte, exigindo atenção à história das edições.
https://www.kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/904/catalogo-racional-de-obras-para-se-fundar-uma-biblioteca-espirita
III. Fontes históricas e acadêmicas
- SWEDENBORG FOUNDATION. Swedenborg’s Life. Biografia e documentação de sua trajetória científica, crise espiritual, produção teológica e recepção histórica.
https://swedenborg.com/emanuel-swedenborg/about-life/ - SWEDENBORG FOUNDATION. Swedenborg’s Scientific Writings. Estudo sobre seus escritos científicos, pesquisas anatômicas e transição intelectual.
https://swedenborg.com/emanuel-swedenborg/scientific-writings/ - SWEDENBORG FOUNDATION. Swedenborg’s Cultural Influence. Panorama de sua influência em movimentos religiosos, literatura e espiritualismo moderno.
https://swedenborg.com/emanuel-swedenborg/influence/ - SWEDENBORG FOUNDATION. Spiritual World (Afterlife). Apresentação das concepções de mundo espiritual, céu, inferno e condição após a morte.
https://swedenborg.com/emanuel-swedenborg/explore/spiritual-world/ - NATURE. Emmanuel Swedenborg (1688–1772). Volume 141, páginas 192–193, 1938. Registro histórico de sua produção científica e teológica.
https://www.nature.com/articles/141192d0 - STANFORD ENCYCLOPEDIA OF PHILOSOPHY. Kant’s Philosophical Development. Análise do contexto filosófico da crítica kantiana a Swedenborg.
https://plato.stanford.edu/entries/kant-development/ - SCHÖNFELD, Martin. The Philosophy of the Young Kant: The Precritical Project. Oxford University Press, 2000. Especialmente o capítulo dedicado à crítica de Swedenborg.
DOI: 10.1093/0195132181.003.0011. - McQUILLAN, J. Colin. Dreams of a Spirit-Seer and Kant’s Critical Method. Kantian Review, 2020. Discussão crítica sobre a influência atribuída a Swedenborg no desenvolvimento da filosofia kantiana.
https://www.cambridge.org/core/journals/kantian-review/article/abs/dreams-of-a-spiritseer-and-kants-critical-method-comments-on-stephen-r-palmquists-kant-and-mysticism/72E2587F7B7EFDA9133F42281DA44B28 - NEW CHURCH. History of the New Church. Documentação sobre a formação institucional posterior à morte de Swedenborg.
https://newchurch.org/about/history-of-the-new-church/ - SWEDENBORG FOUNDATION. Scribe of Heaven: Swedenborg’s Life, Work, and Impact. Estudo biográfico e histórico sobre suas obras e influência espiritualista.
https://swedenborg.com/wp-content/uploads/2015/08/NCE_ScribeofHeaven.pdf
Nota metodológica e de fidelidade doutrinária
Este capítulo foi elaborado com prioridade à documentação histórica de Swedenborg e às referências expressas de Allan Kardec.
A análise distingue quatro dimensões: a biografia historicamente documentada; os ensinamentos formulados em vida por Swedenborg; a avaliação publicada por Kardec; e as comunicações mediúnicas posteriormente atribuídas ao autor sueco.
A fidelidade doutrinária foi assegurada especialmente pelo exame da Revista Espírita de novembro de 1859, na qual Kardec reconhece Swedenborg como precursor, mas apresenta críticas a determinados fundamentos de sua teologia.
As afirmações sobre correspondências, anjos, céu, inferno e revelação pessoal foram apresentadas como elementos do sistema swedenborgiano, sem confundi-las com os princípios da codificação.
A comunicação atribuída ao Espírito de Swedenborg foi contextualizada como documento mediúnico de 1859, não como retratação histórica comprovada do indivíduo falecido em 1772.
Os relatos de clarividência e visitas ao mundo espiritual foram tratados como experiências e alegações históricas, sem pressupor validação científica.
Também foi preservada a diferença entre a importância de Swedenborg como precursor e a autoridade doutrinária atribuída às obras fundamentais de Allan Kardec.
Sonambulismo Magnético e Estados Alterados de Consciência: De Puységur à Interpretação Espírita de Allan Kardec
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